Jalapão: O Deserto das Águas (parte 2)

Paisagens de cair o queixo, aves e flores por todos os lados, nascer e pôr do sol dignos de filmes, pessoas divertidas, amistosas e simpáticas.
Dá pra ficar melhor que isso?
No Jalapão, dá!

No post anterior eu prometi contar mais da viagem e colocar mais fotos.
Vou contar mais da viagem, mas as fotos eu vou ficar devendo, por enquanto.
O motivo: tem TANTAS fotos maravilhosas que eu simplesmente não sei quais colocar. É um lugar tão absurdamente bonito, tão inimaginavelmente perfeito, que se eu passasse um mês lá, ainda não teria fotografado tudo.

Do alto da Serra do Espírito Santo pode-se ver o nascer do sol mais bonito do Jalapão.

Do alto da Serra do Espírito Santo pode-se ver o nascer do sol mais bonito do Jalapão.


A geografia do Jalapão é, no mínimo, curiosa: uma planície imensa, forrada com a vegetação do cerrado, cheia de arbustos e pequenas árvores a se perder de vista.
E no meio dessa planície toda, morros imensos, imponentes, tão íngremes que você se pergunta se alguém já conseguiu escalar aquilo e voltar vivo para casa.

A paisagem varia do semi-árido, com areia fina e branca, ao brejo encharcado, chamado de Vereda, de poder-se afundar até os joelhos.
Dentre esses dois extremos encontra-se de tudo: terra vermelha e fina como açúcar de confeiteiro, cachoeiras tão profundas que desaparecem nos cânions escavados pela força da própria água, florestas densas e de árvores altas e sombras fortes (que são o único abrigo do sol escaldante), dunas cortadas por riachos dignas dos oásis mais lindos e muitos, muitos buracos na estrada.

Antes de me aprofundar no relato da viagem, já quero deixar algo bem claro para você que pretende visitar a região um dia: NÃO TENTE IR SOZINHO.

Esta não é exatamente uma viagem barata, embora também não seja das mais caras, mas nas estradas de terra longas e esburacadas que ligam os atrativos praticamente não há sinalização.
Tentar chegar aos melhores lugares sozinho é garantia de encrenca: você VAI se perder, VAI estragar o carro, VAI atolar e ficar preso por horas até passar algum veículo que possa auxiliá-lo.
Acredite, vi isso de perto quando uma família de São Paulo (tinha que ser, né?) tentou chegar aos pontos usando um Celta alugado (!!!).

Não preciso nem dizer que o Celta desmontou, atolou e a família só conseguiu sair do “meio do nada” porque o Márcio, dono da agência Rota da Iguana tem um coração enorme e rebocou sem cobrar nada a pobre família até a civilização.
Não invente! Vá com um guia, carro 4×4 apropriado e poupe dores de cabeça!

Flores, arbustos e árvores baixas por toda a extensão do terreno.

Flores, arbustos e árvores baixas por toda a extensão do terreno.

A viagem começa na cidade de Palmas, que apesar de ser consideravelmente nova em termos históricos (tem apenas 25 anos), é muito bem desenvolvida e tem toda a infra-estrutura para o turista: restaurantes deliciosos (prove o tucunaré frito! Em torno de R$ 25,00 por pessoa), pousadas e hotéis muito aconchegantes, toda asfaltada e com comércio tão bom quanto qualquer centro urbano.

Nós chegamos no aeroporto de Palmas próximo da meia noite e o Márcio já estava nos esperando com uma plaquinha escrito “Rota da Iguana”.
Menos de 35 segundos após nos apresentarmos, ele já estava fazendo piadas e arrancando gargalhadas do grupo. Ele é simplesmente hilário.

Com uma Ford F-250 adaptada para uso de turistas e muito confortável (ar condicionado, som com entrada para iPod e USB, bancos de couro) ele nos levou até um hotel em Palmas onde passamos a noite para partir bem cedo na manhã seguinte.
Dormi como uma pedra sob o ar condicionado do quarto. A cidade é muito, muito quente.

A Cachoeira da Formiga tem uma das águas mais lindas que eu já vi.

A Cachoeira da Formiga tem
uma das águas mais lindas que eu já vi.

Acordei na manhã de quinta-feira (30/05/2013) tomei um banho frio (por opção, devido ao calor) e após um café da manhã muito reforçado e gostoso, o nosso guia, Marcos, conhecido como Véim (véinho, velhinho) chegou com uma nova F-250 tão equipada quanto a primeira.
Embarcamos e partimos em direção a Ponte Alta.
A viagem é longa e em sua maior parte por asfalto muito bem conservado. Deixamos as bagagens na pousada e rapidamente partimos para a Cachoeira da Sussuapara.

Trata-se de um cânion razoavelmente profundo, com cerca de 20 metros, que tem uma cachoeira no fundo. As raízes das árvores no alto prolongam-se até o fundo, e por elas escorre uma água cristalina e gelada, que é potável. Uma névoa fina e algumas gotas dão a impressão de uma leve garoa, mas é apenas efeito da água pingando das raízes.

O pôr do Sol nas dunas do Jalapão é um espetáculo à parte.

O pôr do Sol nas dunas do Jalapão é um espetáculo à parte.

O passeio é rápido. Na verdade todos são: as distâncias entre os atrativos são tão longas e por estradas tão esburacadas que ficar 5 ou 10 minutos a mais em um lugar impacta severamente no dia todo, especialmente no fim dele, quando você tem um período muito curto para ver o pôr do sol.

Todos de volta na F-250 e partimos rumo à Cachoeira do Soninho. No caminho é possível ver o Morro Vermelho, que é uma formação muito alta, íngreme e, como não poderia deixar de ser, vermelha.
Eu sinceramente me pergunto o tipo de evento natural ocorreu ali para gerar esse tipo de formação no meio da planície. Vou pesquisar mais sobre o tema.

A Cachoeira do Soninho é extremamente violenta. A água bate forte, arrasta tudo e, após milhares e milhares de anos de tanta força, escavou um cânion profundo e íngreme por onde a água some.
Cair ali é morte certa. E ninguém vai achar seu corpo. Por isso, os guias são extremamente severos nas instruções sobre este ponto e com razão, pois a umidade torna tudo muito escorregadio, numa beleza ímpar mas mortal.
Não consegui averiguar quantas pessoas já caíram ali, mas é completamente seguro desde que mantidas as regras (e os guias ficam em cima para que as mantenhamos).

Fotos tiradas. Hora de ir para um dos maiores atrativos da região: ver o pôr do sol na Pedra Furada.
Mais algumas horas de carro por estrada ruim, dessa vez extremamente arenosa, impossível de cruzar com um veículo comum, e chegamos ao nosso destino.
Isso foi com o que me deparei:

Pôr do sol visto da Pedra Furada.

Pôr do sol visto da Pedra Furada.

Preciso dizer algo mais?
É uma coisa maravilhosa. Ímpar.
As cores do céu, os reflexos na pedra avermelhada, as araras voando contra o sol dando aquele ar quase romântico e a certeza de que isso tudo precisa ser sempre preservado.

E aqui um ponto importante: preservação.

É incrível a quantidade de latinhas de alumínio que se vê pelo caminho. Chega a dar uma certa tristeza em alguns pontos.
Contei 14 latinhas em um espaço pequeno de tempo, e parei porque não tive mais paciência para continuar. Questionei Véim sobre aquilo e a resposta me assombrou:

“É grave, mas não são os turistas. O turista ecológico tem consciência e cuida bem daqui. Quem faz isso são os moradores. Eles não têm instrução e estão aqui desde que nasceram, então, eles não vêem isso como lugar especial”.

Atravessar riachos lindos sobre troncos de madeira é comum nos passeios.

Atravessar riachos lindos sobre troncos de madeira é comum nos passeios.

Triste, mas é verdade.
Mostra a importância da conscientização ecológica das pessoas mais simples. A coisa está mudando, claro, mas não tão rapidamente quanto poderia, ou deveria.

Voltamos então para a pousada.
Um jantar simples mas muito saboroso. Aliás, fica aqui registrado que todas as refeições são típicas da região.
Não vá esperando uma diversidade de pratos internacionais feitos por chefs renomados.
Lá eles são pessoas simples, de vida simples, se orgulham disso e querem que você divida essa experiência. E dividí-la é uma delícia: arroz, feijão bem temperadinho, galinha caipira, cozido de abóbora, saladas plantadas ao lado das pousadas, bife acebolado. Tudo muito, muito simples e gostoso.

Garotinha quilombola da vila  de Mumbuca

Garotinha quilombola da vila de Mumbuca

Garotinho da comunidade quilombola de Mumbuca.

Garotinho da comunidade quilombola de Mumbuca.

Muito se fala dos pernilongos, muriçocas, mosquitos e outros insetos que atormentam os turistas.
Eu não tive problemas. Voltei com duas picadas na perna apenas. A Débora sofreu consideravelmente mais. Acho que ter sangue ruim tem lá suas vantagens.

O Jalapão é também um festival de cores, não apenas nas paisagens, mas também nos nomes: Rio Vermelho, Rio Negro, Rio Azul. Tem rio pra todos os gostos, de água quentinha até a semi-congelante. Muitas pedras no rio fazem do Rafting um sucesso na região.
Infelizmente não tivemos tempo de praticar.

As cores também se aplicam à flora.
Todas as cores, formatos, tamanhos e aromas de flores se encontram por aqui. Se você for fã de fotografia Macro, não deixe de trazer uma lente para isso!
Tem tantas flores diferentes e curiosas que pode-se passar o dia só fotografando as mesmas.
As aves também estão sempre presentes e para os amantes da arte de “passarinhar”, uma lente específica também é excelente!

Um dos moradores do Jalapão: a Coruja Buraqueira.

Um dos moradores do Jalapão: a Coruja Buraqueira.

Tucanos, Araras, Corujas e outras aves são presença constante na viagem.

Tucanos, Araras, Corujas e outras aves são presença constante na viagem.

E aqui um vídeo feito pela Débora do povoado de Mumbuca apresentando suas canções:

Bem, vou encerrando este post por aqui.
Ainda tem muitas fotos para preparar e muito o que escrever.
Fique ligado que nos próximos dias tem post novo!

Grande abraço a todos e, na dúvida, fotografe! ;)

Alex

5 ideias sobre “Jalapão: O Deserto das Águas (parte 2)

  1. Brother muito bom seu trabalho como fotografo!!! valew por
    tudo adorei ser seu guia… galera mt fixe!!! espero fazer uma
    viagem não como guia, mais sim como um amigo…. um grande
    abraço….

  2. Alex, nunca tive vontade de ir pro Jalapão (talvez por nunca ter pensado nisso), mas depois de ler/ver esse post, vai ser um destino que com certeza vou fazer um dia!
    As fotos ficaram maravilhosas! Parabéns!
    Continue trazendo essas belezas num dia-a-dia pacato que nós, que ficamos aqui, temos.
    Bjos!

  3. Guri, que tesão a foto da Serra do Espírito Santo… quase mais bonita que a vista ao vivo! Mas o astral do lugar, só estando lá mesmo. Pra quem curte natureza é um destino imperdível!

Deixe uma resposta